A «guerra sem armas»<font color=0093dd>(*)</font>
Direccionar a conduta social a favor da ocupação, moldar a opinião pública aos valores e objectivos do exército invasor, são alguns princípios que orientam a acção das equipas de operações psicológicas que actuam infiltradas no mecanismo civil da comunicação, tanto no Iraque e no Afeganistão como em qualquer país que seja alvo de uma invasão militar dos EUA.
As forças ocupantes recorrem para isso a «empresas biombo» de comunicação a partir das quais infiltram informação ocultando as suas origens.
«As operações psicológicas são parte indispensável da guerra, mais do que nunca na era da electrónica», disse a The New York Times o tenente-coronel Charles A. Krohn, porta-voz e professor de jornalismo reformado do Exército.
As grandes holding mundiais de imprensa utilizam uma «face negra da informação» subvencionada pelo Pentágono e pela CIA
Segundo uma recente notícia do diário nova-iorquino, a unidade de operações psicológicas sediada em Fort Bragg e integrada por 1200 pessoas, produz o que os seus oficiais designam por «mensagens fiáveis» a fim de apoiar os objectivos do governo dos Estados Unidos.
«Designamos de informação o nosso material e propaganda (encoberta) contra o inimigo», disse o coronel Jack N. Summe, na época comandante do Quarto Grupo de Operações Psicológicas, citado pelo Times.
A propaganda encoberta enquadra-se no conceito de «guerra psicológica», ou «guerra sem armas», que foi introduzido pela primeira vez nos manuais de estratégia militar na década de setenta.
Na sua definição técnica, «guerra psicológica», ou «guerra sem armas», é o emprego planificado da propaganda orientada para direccionar comportamentos, visando o controlo social, sem recorrer ao uso de armas.
Os exércitos e os tanques são substituídos por publicitários e especialistas em comunicação de massas.
Tal como na guerra militar, um plano de guerra psicológica visa: aniquilar, controlar ou enfraquecer as defesas do inimigo.
A conquista, ou a repressão militar, são valorizadas segundo métodos científicos de controlo social, convertendo-se numa eficiente estratégia de domínio sem o recurso às armas.
Para esta tarefa, como sucede noutros sectores, a inteligência militar norte-americana vale-se de «empresas biombo» de comunicação para infiltrar as suas mensagens manipuladoras na sociedade.
Estas empresas e estes profissionais da comunicação - como sucede com os mercenários e os contratados de segurança privada - prestam os seus «serviços» ao exército de ocupação mediante um substancial contrato com o Pentágono ou com as agências do governo norte-americano.
Segundo The New York Times, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID) financia umas 30 estações de rádio no Afeganistão, mas oculta essa operação aos ouvintes de rádio, contratando «empresas biombo» de comunicadores civis para encobrir a origem da informação.
Na realidade, a USAID é apenas um exemplo da compra de estruturas privadas de comunicação com as quais a espionagem estadunidense (civil ou militar) procura controlar e/ou influenciar a opinião pública, seja a nível internacional seja a nível nacional nos Estados Unidos.
Estas operações, segundo The New York Times, foram iniciadas pela Casa Branca após os ataques terroristas de 11 de Setembro em Nova Iorque e em Washington.
De acordo com o jornal nova-iorquino, os funcionários e peritos criaram um «grupo secreto» para coordenar as operações de informação do Pentágono, e de outros organismos governamentais, com contratados privados de comunicação.
O seu raio de operações transcende as fronteiras: apesar de não haver dados comprovativos (a contratação e o pagamento são secretos e estão protegidos pelas leis de imunidade da inteligência estadunidense), sabe-se que este sistema de contratação privada de comunicação oficial abrange até os sectores mais elevados da imprensa internacional.
Esta espécie de «face negra da informação» é subvencionada pelo Pentágono e pela CIA, e só é do conhecimento dos altos executivos e responsáveis dos consórcios que a negoceiam.
Nestas transações não intervêm representantes da CIA ou do Pentágono, antes se realizam através de intermediários das «empresas biombo» contratadas para o efeito.
Propaganda militar encoberta
No Iraque e no Afeganistão, onde se concentra a maior parte das actividades militares de ocupação, e valendo-se desses operadores privados (disfarçados de empresas jornalísticas independentes), a inteligência militar norte-americana infiltra estações de rádio, canais de TV e jornais.
Através da compra e do uso de um espaço nesses meios, as empresas privadas contratadas pelo Pentágono difundem material informativo encoberto produzido pelo exército ou pela Casa Branca.
Segundo The New York Times, comparando esses meios, verifica-se que produzem material informativo que, em certas ocasiões, é atribuído ao «Centro Internacional de Informação», uma organização cuja localização é desconhecida.
A administração Bush já foi criticada por distribuir vídeos e artigos jornalísticos nos Estados Unidos sem identificar como fonte o governo federal e por pagar a jornalistas norte-americanos para que promovam as políticas do governo.
A USAID - refere o Times - distribuiu no Iraque e no Afeganistão dezenas de milhares de dispositivos de áudio do tipo iPod (reprodutor de música digital com disco duro ou memória flash, criado pela Apple Computer), que transmitem mensagens cívicas empacotadas, mas fazem-no por intermédio de uma empresa contratada que assegura que não haverá «vestígios» do Pentágono ou do governo dos EUA nas mensagens. «Não queremos que vejam o produto e constatem a presença do governo estadunidense e apaguem o conteúdo», disse a The New York Times o coronel James Treadwell, que dirigiu o apoio às operações psicológicas no Comando de Operações Especiais, em Tampa.
No início de Dezembro transpirou que o Pentágono estava a subornar a imprensa iraquiana enquanto uma equipa de acção psicológica militar concebia operações para «melhorar» a imagem dos EUA no Iraque.
Oficiais de inteligência destacados no Iraque disseram ao diário Los Angeles Times que, em termos gerais, a operação se encontra a cargo da «Força de Operações de Imprensa» em Bagdad, sob as ordens do tenente-general do exército John R. Vines.
Segundo documentos obtidos pelo diário estadunidense, o Pentágono paga para que se publiquem artigos escritos por militares dos EUA orientados de forma a apresentar uma «imagem positiva» das tropas ocupantes do Iraque.
Parte desses artigos são também apresentados na imprensa iraquiana como relatos noticiosos escritos por jornalistas independentes. As histórias elogiam o trabalho das tropas norte-americanas e iraquianas, denunciam os rebeldes e analisam favoravelmente os esforços liderados pelos EUA para a «reconstrução do país».
Ainda segundo o Los Angeles Times, o Pentágono tem um contrato com uma empresa com sede em Washington, designada Lincoln Group, que ajuda a traduzir, editar e publicar os artigos no Iraque. Eis aqui um exemplo elucidativo de como as equipas de operações psicológicas do exército adequam a «comunicação militar» ao âmbito civil através de profissionais (jornalistas, publicitários, etc.) oriundos da imprensa convencional.
O pessoal iraquiano do Lincoln Group, ou os seus subcontratados, às vezes fazem-se passar por jornalistas «freelance» ou executivos de publicidade quando enviam os textos aos média de Bagdad, assinala o Los Angeles Times.
A denunciada campanha de operações de imprensa - de acordo com o diário estadunidense - já provocou uma vaga de críticas entre alguns altos oficiais militares no Iraque e no Pentágono, que sustentam que as tentativas de influenciar os média podem destruir a credibilidade do exército norte-americano noutros países e entre a própria população norte-americana.
Segundo o Los Angeles Times, «o acordo com o Lincoln Group é mais uma prova de até onde chegou o Pentágono no seu esforço para derrubar as fronteiras tradicionais entre as questões públicas militares e as operações psicológicas e de imprensa, que recorrem à propaganda e por vezes à informação enganosa para antecipar os objectivos de uma campanha militar».
A «face branca» e a «face negra» da notícia
Tal como existe uma «economia branca» e uma «economia negra», nos meios de comunicação - por razões comerciais - também existe uma «face branca» e uma «face negra» das notícias difundidas diariamente.
As «notícias negras» (que disfarçam a verdadeira fonte) nas cadeias mediáticas têm um amplo espectro de penetração massiva que supera largamente qualquer operação psicológica concebida pelos meios militares.
A frase «pacificar e democratizar o Iraque», por exemplo, difundida diariamente pelos títulos das grandes agências e cadeias, foi decisiva para que os iraquianos se esquecessem da ocupação militar e fossem votar em massa nas duas eleições convocadas por Washington e pelo seu governo fantoche no país ocupado.
Até agora, Bush e os democratas tinham dirimido a sua disputa pela Casa Branca, utilizando o Iraque nas grandes cadeias informativas, valendo-se sobretudo da propaganda «negra» lançada através de golpes de efeito psicológico apresentados como «informação objectiva».
Há que esclarecer que a propaganda encoberta (tipo «terrorismo da Al Qaeda» ou «torturas no Iraque») produz resultados demolidores, dado que o público massivo da televisão, da rádio ou dos jornais a consome na ignorância dos interesses e objectivos políticos que veicula, e acreditando que se trata de notícias que não têm outro objectivo para além de informar.
A perigosidade extrema da propaganda «ao negro» assenta no facto de ser apresentada como se fosse uma «notícia» comum pelos média que o sistema cataloga como «credíveis e sérios».
Assim, por exemplo, a guerra psicológica eleitoral entre Bush e Kerry desenvolveu-se a partir de títulos e textos informativos de The New York Times, The Washington Post, Reuters, CNN, Associated Press, etc., órgãos de comunicação que são tidos como «fontes confiáveis» até por alguma imprensa considerada «alternativa».
Não ocorre a ninguém pensar que essas estruturas mediáticas são empresas capitalistas que comercializam e lucram com a informação, tal como outras o fazem com o petróleo, com armas, ou com a especulação financeira.
Assim, por exemplo, os democratas valeram-se das denúncias sobre torturas a presos iraquianos por soldados estadunidenses, ou das clássicas aparições de ex-acessores «arrependidos» acusando a administração Bush; ao mesmo tempo, a partir da Casa Branca, teve lugar o habitual «aproveitamento eleitoral» com as incontáveis aparições da Al Qaeda no universo «informativo» da imprensa internacional.
Na realidade, nesta altura da massificação informativa e manipuladora da imprensa internacional (superior a qualquer operação de inteligência militar com acção psicológica), é duvidoso o efeito real que possa ter na opinião pública internacional ou local os segmentos infiltrados de «boas notícias» do Pentágono nas populações denunciadas pelos diários norte-americanos.
Os resultados dessas operações são mínimos quando comparados com o efeito das mensagens manipuladoras enviadas através dos títulos das grandes cadeias e média internacionais.
Nessa operação manipuladora vale mais frequentemente o «ocultamento da informação» do que o que se diz explicitamente no desenvolvimento das notícias.
Regra geral - e neste ponto a maioria dos especialistas coincide - as transações do Pentágono e da CIA com as grandes cadeias mediáticas não giram à volta de mensagens combinadas mas sim do ocultamento de informação.
Um exemplo claro disto veio à luz quando este fim-de-semana (19.12.05) The New York Times revelou que conhecia desde há muito a informação sobre a espionagem interna ordenada por Bush à Agência Nacional de Inteligência estadunidense.
E por que não a deu antes? Evidentemente porque o diário, durante esse tempo, ainda não tinha tomado uma posição extrema a favor dos interesses de poder que hoje querem derrubar Bush e ficar com a Casa Branca.
Não são poucos os peritos e os estudiosos que advogam que as grandes holding mundiais de imprensa utilizam uma «face negra da informação» subvencionada pelo Pentágono e pela CIA, a qual só é conhecida e negociada pelos altos executivos e responsáveis desses consórcios.
Ou seja, que essa operação de contratar informação encoberta da CIA e do Pentágono faz parte da «política de mercado» desses consórcios comunicacionais, que não existem para dizer a verdade mas sim para acumular lucros através do comércio da informação.
Naturalmente que nessas transações com os grandes polvos da informação mundial não intervêm de forma directa representantes da CIA ou do Pentágono, antes se efectuam por intermédio das «empresas biombo» contratadas para o efeito. E, naturalmente, há algo que The New York Times e o conjunto da imprensa norte-americana nunca vão contar: Os «serviços» que as grandes cadeias prestam ao Pentágono e à Casa Branca difundindo diariamente notícias do Iraque ou do Afeganistão provenientes apenas de fontes e porta-vozes militares dos EUA, são infinitamente muito mais rentáveis que qualquer operação de manipulação realizada com a compra de média locais.
Não se trata apenas - como diz o jornalista Robert Fisk - do facto de os correspondentes «informarem sobre o Iraque» a partir das suas casas ou dos hotéis da Zona Verde, mas sim do facto de a esmagadora maioria das notícias sobre o Iraque nas grandes cadeias de massas provirem de fontes do exército dos EUA.
Esse é o ponto fulcral da questão, no qual estão envolvidos não apenas as grandes cadeias televisivas e agências mas também o conjunto dos diários norte-americanos encabeçados pelo The New York Times e The Washington Post.
De tal forma, que estes grandes média (como é o caso do Times e do Post) que denunciam operações pontuais de acção psicológica do Pentágono nos média locais, servem de veículo de transmissão de informação sobre o Iraque proveniente dos porta-vozes do Pentágono.
Este contra-senso só se explica pela guerra interna que mantém uma parte do establishment do poder e dos grandes média estadunidenses com a administração republicana de George W. Bush.
Tudo o que «revelam» ou «denunciam» as grandes cadeias contra Bush (ainda que correspondam a uma realidade objectiva, como é o caso do Iraque) vai no sentido dos interesses desses sectores que querem afastar o actual presidente da Casa Branca. Ou seja, resumindo a questão, as grandes cadeias mediáticas «anti-Bush» denunciam as operações «menores» do Pentágono utilizando «empresas biombo» e média locais, mas escondem zelosamente as «grandes operações de ocultamento e manipulação massiva da informação» de que fazem parte através de transacções secretas com a inteligência norte-americana.
A desinformação (ou a falta de contra-informação) a nível das massas, permite que estas operações de acção psicológica continuem a desenvolver-se sob a forma de «notícias», ou de informação objectiva, sem que nenhum meio de comunicação do sistema ponha em causa a sua veracidade.
E isto indica claramente que o verdadeiro cenário em que se vai definir a guerra pelo controlo da Casa Branca, daqui em diante, é o campo mediático da propaganda «ao negro», onde Bush e os democratas combaterão sem tréguas, sem que a maioria do mundo saiba de nada.
À margem disto, e tal como foram sempre, as cadeias e diários norte-americanos continuarão a ser os maiores contratados privados da informação ao serviço da Casa Branca e do Pentágono.
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(*) - Artigo publicado em Rebelión. Traduzido do castelhano por Anabela Fino
«Designamos de informação o nosso material e propaganda (encoberta) contra o inimigo», disse o coronel Jack N. Summe, na época comandante do Quarto Grupo de Operações Psicológicas, citado pelo Times.
A propaganda encoberta enquadra-se no conceito de «guerra psicológica», ou «guerra sem armas», que foi introduzido pela primeira vez nos manuais de estratégia militar na década de setenta.
Na sua definição técnica, «guerra psicológica», ou «guerra sem armas», é o emprego planificado da propaganda orientada para direccionar comportamentos, visando o controlo social, sem recorrer ao uso de armas.
Os exércitos e os tanques são substituídos por publicitários e especialistas em comunicação de massas.
Tal como na guerra militar, um plano de guerra psicológica visa: aniquilar, controlar ou enfraquecer as defesas do inimigo.
A conquista, ou a repressão militar, são valorizadas segundo métodos científicos de controlo social, convertendo-se numa eficiente estratégia de domínio sem o recurso às armas.
Para esta tarefa, como sucede noutros sectores, a inteligência militar norte-americana vale-se de «empresas biombo» de comunicação para infiltrar as suas mensagens manipuladoras na sociedade.
Estas empresas e estes profissionais da comunicação - como sucede com os mercenários e os contratados de segurança privada - prestam os seus «serviços» ao exército de ocupação mediante um substancial contrato com o Pentágono ou com as agências do governo norte-americano.
Segundo The New York Times, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID) financia umas 30 estações de rádio no Afeganistão, mas oculta essa operação aos ouvintes de rádio, contratando «empresas biombo» de comunicadores civis para encobrir a origem da informação.
Na realidade, a USAID é apenas um exemplo da compra de estruturas privadas de comunicação com as quais a espionagem estadunidense (civil ou militar) procura controlar e/ou influenciar a opinião pública, seja a nível internacional seja a nível nacional nos Estados Unidos.
Estas operações, segundo The New York Times, foram iniciadas pela Casa Branca após os ataques terroristas de 11 de Setembro em Nova Iorque e em Washington.
De acordo com o jornal nova-iorquino, os funcionários e peritos criaram um «grupo secreto» para coordenar as operações de informação do Pentágono, e de outros organismos governamentais, com contratados privados de comunicação.
O seu raio de operações transcende as fronteiras: apesar de não haver dados comprovativos (a contratação e o pagamento são secretos e estão protegidos pelas leis de imunidade da inteligência estadunidense), sabe-se que este sistema de contratação privada de comunicação oficial abrange até os sectores mais elevados da imprensa internacional.
Esta espécie de «face negra da informação» é subvencionada pelo Pentágono e pela CIA, e só é do conhecimento dos altos executivos e responsáveis dos consórcios que a negoceiam.
Nestas transações não intervêm representantes da CIA ou do Pentágono, antes se realizam através de intermediários das «empresas biombo» contratadas para o efeito.
Propaganda militar encoberta
No Iraque e no Afeganistão, onde se concentra a maior parte das actividades militares de ocupação, e valendo-se desses operadores privados (disfarçados de empresas jornalísticas independentes), a inteligência militar norte-americana infiltra estações de rádio, canais de TV e jornais.
Através da compra e do uso de um espaço nesses meios, as empresas privadas contratadas pelo Pentágono difundem material informativo encoberto produzido pelo exército ou pela Casa Branca.
Segundo The New York Times, comparando esses meios, verifica-se que produzem material informativo que, em certas ocasiões, é atribuído ao «Centro Internacional de Informação», uma organização cuja localização é desconhecida.
A administração Bush já foi criticada por distribuir vídeos e artigos jornalísticos nos Estados Unidos sem identificar como fonte o governo federal e por pagar a jornalistas norte-americanos para que promovam as políticas do governo.
A USAID - refere o Times - distribuiu no Iraque e no Afeganistão dezenas de milhares de dispositivos de áudio do tipo iPod (reprodutor de música digital com disco duro ou memória flash, criado pela Apple Computer), que transmitem mensagens cívicas empacotadas, mas fazem-no por intermédio de uma empresa contratada que assegura que não haverá «vestígios» do Pentágono ou do governo dos EUA nas mensagens. «Não queremos que vejam o produto e constatem a presença do governo estadunidense e apaguem o conteúdo», disse a The New York Times o coronel James Treadwell, que dirigiu o apoio às operações psicológicas no Comando de Operações Especiais, em Tampa.
No início de Dezembro transpirou que o Pentágono estava a subornar a imprensa iraquiana enquanto uma equipa de acção psicológica militar concebia operações para «melhorar» a imagem dos EUA no Iraque.
Oficiais de inteligência destacados no Iraque disseram ao diário Los Angeles Times que, em termos gerais, a operação se encontra a cargo da «Força de Operações de Imprensa» em Bagdad, sob as ordens do tenente-general do exército John R. Vines.
Segundo documentos obtidos pelo diário estadunidense, o Pentágono paga para que se publiquem artigos escritos por militares dos EUA orientados de forma a apresentar uma «imagem positiva» das tropas ocupantes do Iraque.
Parte desses artigos são também apresentados na imprensa iraquiana como relatos noticiosos escritos por jornalistas independentes. As histórias elogiam o trabalho das tropas norte-americanas e iraquianas, denunciam os rebeldes e analisam favoravelmente os esforços liderados pelos EUA para a «reconstrução do país».
Ainda segundo o Los Angeles Times, o Pentágono tem um contrato com uma empresa com sede em Washington, designada Lincoln Group, que ajuda a traduzir, editar e publicar os artigos no Iraque. Eis aqui um exemplo elucidativo de como as equipas de operações psicológicas do exército adequam a «comunicação militar» ao âmbito civil através de profissionais (jornalistas, publicitários, etc.) oriundos da imprensa convencional.
O pessoal iraquiano do Lincoln Group, ou os seus subcontratados, às vezes fazem-se passar por jornalistas «freelance» ou executivos de publicidade quando enviam os textos aos média de Bagdad, assinala o Los Angeles Times.
A denunciada campanha de operações de imprensa - de acordo com o diário estadunidense - já provocou uma vaga de críticas entre alguns altos oficiais militares no Iraque e no Pentágono, que sustentam que as tentativas de influenciar os média podem destruir a credibilidade do exército norte-americano noutros países e entre a própria população norte-americana.
Segundo o Los Angeles Times, «o acordo com o Lincoln Group é mais uma prova de até onde chegou o Pentágono no seu esforço para derrubar as fronteiras tradicionais entre as questões públicas militares e as operações psicológicas e de imprensa, que recorrem à propaganda e por vezes à informação enganosa para antecipar os objectivos de uma campanha militar».
A «face branca» e a «face negra» da notícia
Tal como existe uma «economia branca» e uma «economia negra», nos meios de comunicação - por razões comerciais - também existe uma «face branca» e uma «face negra» das notícias difundidas diariamente.
As «notícias negras» (que disfarçam a verdadeira fonte) nas cadeias mediáticas têm um amplo espectro de penetração massiva que supera largamente qualquer operação psicológica concebida pelos meios militares.
A frase «pacificar e democratizar o Iraque», por exemplo, difundida diariamente pelos títulos das grandes agências e cadeias, foi decisiva para que os iraquianos se esquecessem da ocupação militar e fossem votar em massa nas duas eleições convocadas por Washington e pelo seu governo fantoche no país ocupado.
Até agora, Bush e os democratas tinham dirimido a sua disputa pela Casa Branca, utilizando o Iraque nas grandes cadeias informativas, valendo-se sobretudo da propaganda «negra» lançada através de golpes de efeito psicológico apresentados como «informação objectiva».
Há que esclarecer que a propaganda encoberta (tipo «terrorismo da Al Qaeda» ou «torturas no Iraque») produz resultados demolidores, dado que o público massivo da televisão, da rádio ou dos jornais a consome na ignorância dos interesses e objectivos políticos que veicula, e acreditando que se trata de notícias que não têm outro objectivo para além de informar.
A perigosidade extrema da propaganda «ao negro» assenta no facto de ser apresentada como se fosse uma «notícia» comum pelos média que o sistema cataloga como «credíveis e sérios».
Assim, por exemplo, a guerra psicológica eleitoral entre Bush e Kerry desenvolveu-se a partir de títulos e textos informativos de The New York Times, The Washington Post, Reuters, CNN, Associated Press, etc., órgãos de comunicação que são tidos como «fontes confiáveis» até por alguma imprensa considerada «alternativa».
Não ocorre a ninguém pensar que essas estruturas mediáticas são empresas capitalistas que comercializam e lucram com a informação, tal como outras o fazem com o petróleo, com armas, ou com a especulação financeira.
Assim, por exemplo, os democratas valeram-se das denúncias sobre torturas a presos iraquianos por soldados estadunidenses, ou das clássicas aparições de ex-acessores «arrependidos» acusando a administração Bush; ao mesmo tempo, a partir da Casa Branca, teve lugar o habitual «aproveitamento eleitoral» com as incontáveis aparições da Al Qaeda no universo «informativo» da imprensa internacional.
Na realidade, nesta altura da massificação informativa e manipuladora da imprensa internacional (superior a qualquer operação de inteligência militar com acção psicológica), é duvidoso o efeito real que possa ter na opinião pública internacional ou local os segmentos infiltrados de «boas notícias» do Pentágono nas populações denunciadas pelos diários norte-americanos.
Os resultados dessas operações são mínimos quando comparados com o efeito das mensagens manipuladoras enviadas através dos títulos das grandes cadeias e média internacionais.
Nessa operação manipuladora vale mais frequentemente o «ocultamento da informação» do que o que se diz explicitamente no desenvolvimento das notícias.
Regra geral - e neste ponto a maioria dos especialistas coincide - as transações do Pentágono e da CIA com as grandes cadeias mediáticas não giram à volta de mensagens combinadas mas sim do ocultamento de informação.
Um exemplo claro disto veio à luz quando este fim-de-semana (19.12.05) The New York Times revelou que conhecia desde há muito a informação sobre a espionagem interna ordenada por Bush à Agência Nacional de Inteligência estadunidense.
E por que não a deu antes? Evidentemente porque o diário, durante esse tempo, ainda não tinha tomado uma posição extrema a favor dos interesses de poder que hoje querem derrubar Bush e ficar com a Casa Branca.
Não são poucos os peritos e os estudiosos que advogam que as grandes holding mundiais de imprensa utilizam uma «face negra da informação» subvencionada pelo Pentágono e pela CIA, a qual só é conhecida e negociada pelos altos executivos e responsáveis desses consórcios.
Ou seja, que essa operação de contratar informação encoberta da CIA e do Pentágono faz parte da «política de mercado» desses consórcios comunicacionais, que não existem para dizer a verdade mas sim para acumular lucros através do comércio da informação.
Naturalmente que nessas transações com os grandes polvos da informação mundial não intervêm de forma directa representantes da CIA ou do Pentágono, antes se efectuam por intermédio das «empresas biombo» contratadas para o efeito. E, naturalmente, há algo que The New York Times e o conjunto da imprensa norte-americana nunca vão contar: Os «serviços» que as grandes cadeias prestam ao Pentágono e à Casa Branca difundindo diariamente notícias do Iraque ou do Afeganistão provenientes apenas de fontes e porta-vozes militares dos EUA, são infinitamente muito mais rentáveis que qualquer operação de manipulação realizada com a compra de média locais.
Não se trata apenas - como diz o jornalista Robert Fisk - do facto de os correspondentes «informarem sobre o Iraque» a partir das suas casas ou dos hotéis da Zona Verde, mas sim do facto de a esmagadora maioria das notícias sobre o Iraque nas grandes cadeias de massas provirem de fontes do exército dos EUA.
Esse é o ponto fulcral da questão, no qual estão envolvidos não apenas as grandes cadeias televisivas e agências mas também o conjunto dos diários norte-americanos encabeçados pelo The New York Times e The Washington Post.
De tal forma, que estes grandes média (como é o caso do Times e do Post) que denunciam operações pontuais de acção psicológica do Pentágono nos média locais, servem de veículo de transmissão de informação sobre o Iraque proveniente dos porta-vozes do Pentágono.
Este contra-senso só se explica pela guerra interna que mantém uma parte do establishment do poder e dos grandes média estadunidenses com a administração republicana de George W. Bush.
Tudo o que «revelam» ou «denunciam» as grandes cadeias contra Bush (ainda que correspondam a uma realidade objectiva, como é o caso do Iraque) vai no sentido dos interesses desses sectores que querem afastar o actual presidente da Casa Branca. Ou seja, resumindo a questão, as grandes cadeias mediáticas «anti-Bush» denunciam as operações «menores» do Pentágono utilizando «empresas biombo» e média locais, mas escondem zelosamente as «grandes operações de ocultamento e manipulação massiva da informação» de que fazem parte através de transacções secretas com a inteligência norte-americana.
A desinformação (ou a falta de contra-informação) a nível das massas, permite que estas operações de acção psicológica continuem a desenvolver-se sob a forma de «notícias», ou de informação objectiva, sem que nenhum meio de comunicação do sistema ponha em causa a sua veracidade.
E isto indica claramente que o verdadeiro cenário em que se vai definir a guerra pelo controlo da Casa Branca, daqui em diante, é o campo mediático da propaganda «ao negro», onde Bush e os democratas combaterão sem tréguas, sem que a maioria do mundo saiba de nada.
À margem disto, e tal como foram sempre, as cadeias e diários norte-americanos continuarão a ser os maiores contratados privados da informação ao serviço da Casa Branca e do Pentágono.
__________________
(*) - Artigo publicado em Rebelión. Traduzido do castelhano por Anabela Fino